Pandemia é tema de debate com professores de Ciências Humanas

Pandemia é tema de debate com professores de Ciências Humanas

Encontro virtual promove reflexões e debates sobre o impacto das pandemias pretéritas e do Covid-19 sobre a sociedade, o comportamento e a sustentabilidade.

Apresentação foi realizada via encontro virtual.

Desde o início da epopeia humana na Terra, o homem altera o meio ambiente e se adapta às condições naturais dos continentes. A partir de sua partida da África, através dos tempos, a humanidade convive com epidemias e pandemias que moldaram a História. Foi a partir dessa reflexão que a área de Ciências Humanas do Colégio Guilherme Dumont Villares promoveu um encontro virtual especial dos professores de Filosofia, Geografia, História e Sociologia com os alunos do Ensino Médio nos dias 11 e 12 de maio.

O encontro, intitulado Doenças, Pestes e Pandemias na História, procurou trazer para o debate reflexões, sob a ótica das ciências humanas, sobre a pandemia de covid-19 pela qual passamos e discutir como a humanidade convive com epidemias e pandemias através dos tempos e como elas impactam sobre a sociedade, o comportamento e a sustentabilidade.

Ao longo da apresentação, os alunos acompanharam o histórico das principais pestes e epidemias que abalaram a trajetória histórica da humanidade, desde a Antiguidade aos tempos atuais, e como a História foi peculiarmente marcada por doenças que atingiram o mundo em diferentes épocas, como se propagaram e as marcas profundas que deixaram em seu tempo, como ocorreu com a Peste Negra.

E o que a análise histórica desses eventos nos revela? Epidemias / pandemias aconteceram em regiões e momentos históricos nos quais coexistiram ao menos três fatores fundamentais: adensamento populacional humano em áreas urbanas com condições de saneamento básico e higiene precária; aumento do intercâmbio de mercadorias e do convívio entre pessoas de regiões diferentes devido à intensa atividade comercial e, por último, o desconhecimento dos microrganismos causadores das doenças e, consequentemente, das formas de contágio e de tratamento.

Outro ponto importante abordado foram as diversas formas que as epidemias transformam o mundo, com foco especial na atualidade. Assim, temas como a religiosidade, a ciência, as questões éticas e morais, a resistência das pessoas em seguir as orientações das autoridades sanitárias, a convivência familiar e as mudanças nos conceitos de felicidade e consumo estiveram no centro do debate.

Mas, o que fazer? O que nos espera? Como viver em um mundo mais sustentável? Para responder às indagações e aflições a que o tema remete, partiu-se de uma abordagem geográfica tendo como base a teoria ecomalthusiana, que estuda a relação sociedade/natureza e como ela se associa ao aumento da população mundial, questionando a relação de desequilíbrio entre o crescimento populacional e a disponibilidade de recursos naturais, além da capacidade da natureza em resistir à crescente intervenção humana em função do aumento gradativo das populações. Em outras palavras, o aumento desenfreado da espécie humana além de esgotar os recursos naturais do planeta, também provoca um grave desequilíbrio no meio-ambiente que coloca em risco a própria espécie humana, inclusive através de pandemias.

Para entender essa relação, os alunos acompanharam a explanação sobre a “Ecologia das epidemias modernas”.  Hoje, novos vírus poderosos estão ligados a animais em contato com humanos. São vírus transmitidos por macacos, morcegos, aves, suínos e outras espécies e que chegam rapidamente ao meio humano. O contato do homem com esses animais está associado ao modelo de pecuária em larga escala, realizado em grandes propriedades, e que utiliza animais homogêneos, com baixa imunidade, criados em áreas sem proteção natural e ambientes simplificados. Então, temos como causa geral do surgimentos de novos vírus
a presença destas grandes fazendas que se transformam em grandes criadouros de vírus mutantes e transmitidos aos humanos de maneira direta ou através de outros animais silvestres que entram em contato com tais criadouros.

Outra ameaça que se apresenta para a humanidade é a existência de vírus e outros microrganismos que estão sendo liberados a partir da rápida destruição de ecossistemas até pouco tempo intactos – como a Amazônia, a Sibéria e o Ártico – que levam o homem a entrar em contato com novos biomas e, consequentemente, com novos vírus armazenados ao longo de milênios nesses ambientes. São problemas e ameaças que aguardam respostas.

E o mundo Pós-covid-19? Para responder a essa indagação, recorreu-se a uma comparação histórica entre a obra “Decameron”, de Giovanni Boccaccio, escrita em plena Peste Negra, e o pensamento do historiador Yuval Harari, que tem refletido sobre “o que está acontecendo no mundo hoje, qual é o sentido mais profundo desses eventos e como podemos individualmente nos guiar através deles?”.

Se, para Boccaccio, a Peste Negra trouxe uma nova ideia da condição humana, que tornou o homem responsável pelo seu próprio destino, mudou comportamentos e instituiu uma “cultura da morte” que provocou um sentimento de igualdade social, para Harari, em um  cenário global pós-pandemia,será a constatação de que, com elas, os processos históricos avançam rapidamente trazendo mudanças em diferentes níveis, educação, consumo, trabalho e higiene, entre outros.

Cooperação e solidariedade global, informação, confiança na ciência e a visão de que não se trata mais das nações, mas da espécie humana, serão elementos fundamentais, para ele, no combate à disseminação da pandemia. Sem confiança e solidariedade global veremos um mundo pós-covid-19 marcado pelo crescimento da xenofobia, do isolacionismo e da desconfiança geral que, associado a centenas de milhões de pessoas que não têm acesso a serviços essenciais de saúde, provavelmente teremos mais dessas epidemias no futuro.

“Acho que historiadores futuros verão este como um ponto de mutação na história do século 21. Mas a forma que dermos a ele dependerá de nossas decisões. Não é inevitável”, afirma Harari.