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PALAVRA DOS EDUCADORES DO GDV AOS PAIS E ALUNOS

REFLEXÕES SOBRE O USO DA INTERNET

Durante as últimas décadas, vivemos uma transformação completa no que se refere à Tecnologia da Comunicação e da Informação (TIC). Como conseqüência tivemos repercussões positivas e negativas, no desenvolvimento psicológico moral e social das pessoas, na estrutura e no funcionamento da sociedade, na partilha de uma cultura com outra, na percepção e na transmissão dos valores morais, nas idéias sobre o mundo, nas ideologias políticas e nas convicções religiosas.

Hoje, não há necessidade de uma grande imaginação para vislumbrar a Terra como um globo interligado energeticamente com as transmissões eletrônicas – um planeta em diálogo, aconchegado no silêncio providencial do espaço. A questão ética consiste em saber se isto contribui para um desenvolvimento humano autêntico e para ajudar os indivíduos e os povos a corresponder à verdade do seu destino transcendente.

Naturalmente, de muitas formas, a resposta é positiva. Os novos meios de comunicação são instrumentos poderosos para o enriquecimento educativo e cultural, para a atividade comercial e a participação política, para o diálogo e a compreensão interculturais. Contudo, esta moeda tem também o seu reverso. Os meios de comunicação que devem ser utilizados para o bem das pessoas e das comunidades podem ser usados inclusive para explorar, manipular, dominar e corromper.

Como acontece com os outros meios de comunicação, as pessoas e a comunidade dos indivíduos são centrais para uma avaliação ética da Internet. Em relação à mensagem comunicada, ao processo de comunicação e às questões de estrutura e de sistema no campo das comunicações, “o princípio ético fundamental é este: a pessoa e as comunidades humanas são a finalidade e a medida do uso dos meios de comunicação social”.

O bem comum internacional, a virtude da solidariedade, a revolução na tecnologia dos meios de comunicação e de informação, assim como a Internet, são todos relevantes para o processo de globalização.

O uso das novas tecnologias de informação e da Internet precisa ser ponderado e orientado por um compromisso decidido em prol da prática da solidariedade ao serviço do bem comum, tanto dentro das nações como entre elas mesmas . Estas tecnologias podem constituir um modo de resolver os problemas humanos, de promover o desenvolvimento integral das pessoas e de criar um mundo governado pela justiça, a paz e o amor.

Trata-se de uma visão surpreendente. A Internet só pode ajudar a fazer disto uma realidade - para os indivíduos, os grupos, as nações e a raça humana - se for utilizada à luz dos princípios éticos clarividentes e sólidos. Fazer isto será vantajoso para todos, pois “sabemos ... hoje (algo) mais do que ontem: jamais viveremos felizes e em paz uns sem os outros e, menos ainda, uns contra os outros”. Será uma expressão daquela espiritualidade de comunhão que implica “a capacidade de ver antes de mais nada o que há de positivo no outro, para o acolher e valorizar”.

A difusão da Internet levanta também um certo número de interrogações éticas acerca de problemáticas como a privacidade, a segurança e a credibilidade dos dados, os direitos autorais e a lei de tutela da propriedade intelectual, a pornografia, os sites que instigam ao ódio, a disseminação de boatos, a representação de homicídios sob a aparência de notícias, e muito mais.

A seguir, discorreremos brevemente sobre alguns destes elementos reconhecendo, ao mesmo tempo, que eles exigem análise e debate constantes por parte de todos os envolvidos. Contudo, nós Educadores do Colégio Guilherme Dumont Villares, obviamente não julgamos a Internet unicamente como uma fonte de problemas; consideramo-la como um manancial de benefícios para o gênero humano. Todavia, as vantagens só podem se realizar plenamente, se os problemas por ela hoje acarretados, forem resolvidos.

SOBRE A INTERNET

A Internet possui uma série de características impressionantes. Ela é instantânea, imediata, de alcance mundial, descentralizada, interativa, expansível até ao infinito em termos de conteúdo e de alcance, flexível e adaptável a um nível surpreendente. É igualitária, no sentido de que, qualquer pessoa que disponha do equipamento necessário e de uma modesta capacidade técnica, pode constituir uma presença ativa no espaço cibernético, transmitir a sua mensagem para o mundo e reivindicar um seu auditório. Ela permite às pessoas o luxo de permanecer no anonimato, de desempenhar uma determinada função, de devanear e também de formar uma comunidade com as outras pessoas e de nela participar. Em conformidade com os gostos do usuário, ela presta-se tanto à participação ativa como ao isolamento passivo num “mundo narcisista, que tem a si mesmo como ponto de referência, feito de estímulos cujos efeitos são semelhantes aos dos narcóticos”. A ela pode recorrer-se também para interromper o isolamento de indivíduos ou de grupo, ou para o exacerbar.

A configuração tecnológica subjacente à Internet tem uma influência considerável sobre os seus aspectos éticos: tendencialmente, as pessoas usam-na de acordo com o modo em que ela é projetada, e delineiam-na de forma a adaptar-se a este tipo de uso. Assim, nasceu um individualismo exagerado em relação à Internet. Dizia-se que nela se encontrava um novo domínio, a maravilhosa terra do espaço cibernético, onde era permitido qualquer tipo de expressão e onde a única lei consistia na liberdade individual total, de se fazer o que quiser. Com efeito, isto significava que a única comunidade, cujos direitos e interesses seriam verdadeiramente reconhecidos no espaço cibernético, era a comunidade dos libertários radicais. Este modo de pensar ainda exerce a sua influência em determinados círculos, apoiados por conhecidos argumentos libertários, aos quais se recorre também para defender a pornografia e a violência nos meios de comunicação em geral.

A explosão das tecnologias de informação multiplicou muitas vezes as capacidades de comunicação de alguns indivíduos e grupo privilegiados. Contudo, esta visão não é completa. “Paradoxalmente, as mesmas forças que contribuem para o melhoramento da comunicação podem levar, de igual modo, ao aumento do isolamento e à alienação” . A Internet pode unir as pessoas, mas também pode dividi-las, tanto a nível individual como em grupos afins, separados por ideologias, políticas, posses, raças, etnias, diferenças de geração e até mesmo de religião. Ela já tem sido utilizada de maneiras agressivas, quase como se fosse uma arma de guerra, e já se tem falado do perigo do “terrorismo cibernético”. Seria dolorosamente irônico se este instrumento de comunicação, com um potencial tão elevado para unir as pessoas, se tornasse uma arena para conflitos internacionais de todas as ordens.

Umas das mais importantes preocupações com a Internet diz respeito àquilo a que hoje se chama “divisão digital” - uma forma de discriminação que separa os ricos dos pobres, tanto dentro das nações como entre elas mesmas, com base no acesso, ou na falta de acesso, às novas tecnologias de informação. Neste sentido, trata-se de uma versão atualizada da diferença mais antiga entre as pessoas “ricas de informação” e as outras “pobres de informação”.

Outro aspecto particularmente preocupante no uso da Internet trata-se das dimensões culturais e seu alcance. Precisamente como poderosos instrumentos no processo de globalização, as novas tecnologias de informação e a Internet transmitem e contribuem para formar uma série de valores culturais - modos de pensar acerca dos relacionamentos sociais, da família, da religião e das condições humanas ¾ cuja novidade e fascínio podem desafiar e ultrapassar as culturas tradicionais, desestabilizando de forma profunda a estrutura familiar.

Sem dúvida, o diálogo e o enriquecimento interculturais são de todo desejáveis. O diálogo entre as culturas é particularmente necessário hoje, quando se pensa no impacto das novas tecnologias da comunicação sobre a vida das pessoas e dos povos, contudo, este caminho deve ser bilateral. As culturas têm muito a aprender umas com as outras, e meramente impor a visão, os valores e até mesmo a linguagem mundial de uma determinada cultura sobre as outras não significa diálogo, mas imperialismo cultural.

O domínio cultural é um problema particularmente sério, quando uma cultura predominante transmite valores falsos, contrários ao bem genuíno dos indivíduos e dos grupos. Desta forma a Internet, juntamente com os outros instrumentos de comunicação social, tem transmitido uma mensagem imbuída dos valores da cultura secular ocidental a pessoas e a sociedades que, em muitos casos, não estão adequadamente preparadas para avaliar e para lidar com a mesma. Daqui resultam problemas sérios ¾ por exemplo, no que diz respeito à vida matrimonial e familiar, cuja instituição tem experimentado “uma crise generalizada e radical”.

Analogamente, o problema da liberdade de expressão na Internet é complexo e dá origem a uma outra série de preocupações.

Defendemos de forma vigorosa a liberdade de expressão e o livre intercâmbio de idéias. A liberdade de procurar e de conhecer a verdade é um direito humano fundamental, e a liberdade de expressão constitui uma pedra angular da democracia. A Internet é um instrumento muito eficaz para transmitir rapidamente as notícias e as informações às pessoas. Contudo, a concorrência econômica e a natureza de continuidade perene através da Internet também contribuem para o sensacionalismo e a intriga, para a fusão de notícias, publicidades e divertimentos, bem como para o aparente declínio das reportagens e dos comentários sérios. O jornalismo honesto é essencial para o bem comum das nações e da comunidade internacional. Os problemas atualmente visíveis na prática do jornalismo através da Internet exigem uma emenda urgente por parte dos próprios jornalistas.

A quantidade esmagadora de informações presentes na Internet, uma boa parte das quais não é avaliada em termos, em exatidão e em relevância, constitui um problema para muitas pessoas. Contudo, tememos também que as pessoas recorram à capacidade tecnológica dos mass media para uniformizar as informações, simplesmente em ordem a erguer barreiras eletrônicas contra idéias pouco familiares. Este seria um desenvolvimento negativo num mundo pluralista, onde as pessoas precisam crescer na compreensão recíproca.

Os usuários da Internet têm o dever de ser seletivos e disciplinados, não podem chegar ao extremo de se isolar dos outros. As implicações dos mass media para o desenvolvimento psicológico e também para a saúde precisam de um estudo contínuo e profundo , considerando ainda o grave perigo que a permanência prolongada no mundo virtual do espaço cibernético pode causar às pessoas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS É nossa convicção que a virtude da solidariedade constitui a medida do serviço da Internet em prol do bem comum.

Desta forma, se faz fundamental que todos os usuários da Internet se conscientizem de utilizá-la de maneira ponderada e disciplinada, para finalidades moralmente positivas.

Enfatizamos veementemente a responsabilidade que cabe às Famílias , mais particularmente aos Pais e às Mães , no sentido de orientar, supervisionar e verificar o uso que os seus filhos fazem da Internet, dosando rigorosamente a quantidade de tempo que dedicam a ela.

Por sua vez, não menos relevante, é a função das Escolas e também as outras instituições e programas de educação para as crianças e os adultos devem, obrigatoriamente, oferecer uma formação para o discernimento do uso da Internet como parte de uma educação abrangente, incluindo não apenas a formação e desenvolvimento da capacidade técnica - e outras matérias análogas - mas, a Educação para o Mundo Virtual que possa formar consciências e desenvolver capacidades para uma avaliação ponderada e judiciosa do seu conteúdo.

Aquelas pessoas e instituições, cujas decisões e ações contribuem para formar a estrutura e o conteúdo da Internet, têm o dever particularmente sério de atentar para a Ética, como princípio maior.

A bem da verdade, a Internet não está mais isenta do que outros meios de comunicação, das leis contra a linguagem ofensiva, a difamação, a fraude, a pornografia infantil e a pornografia em geral, assim como outras ofensas. No entanto, é fundamental que se evidencie que o que é comportamento criminoso noutros contextos é igualmente um comportamento criminoso no espaço cibernético, e as autoridades civis têm o direito e o dever de fazer valer estas leis aplicando-as aos crimes e transgressões cibernéticas.

Conclusivamente, queremos ratificar nossa crença no extraordinário potencial da Internet, que pode oferecer uma contribuição extremamente valiosa para a vida humana. Sobretudo na promoção da solidariedade, da prosperidade universal e da paz, do crescimento intelectual e estético, além da compreensão recíproca entre os povos e as nações a nível mundial.

Sendo assim, ensejamos que predomine a esperança de uma Terra Nova, que, de forma alguma, deve afrouxar nosso zelo para com ela, mas antes, deve estimular nossa preocupação e cuidados no cultivo desta Nova Terra.



Texto consultado: John P. Foley

 


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